A instituição das câmaras municipais chegou
ao Brasil no regimento de Martim Afonso, que em 1532 instalou
a Câmara de São Vicente, constituída por
cinco oficiais (vereadores). A Câmara de São Vicente
(SP) foi a primeira realizada no continente americano, dando
origem ao primeiro município brasileiro.
De início muitas câmaras ocuparam sedes provisórias,
mas o modelo arquitetônico colonial das casas da câmara
e cadeia brasileiras foi, em geral, baseado na de Salvador
(BA - século XVI); um sobrado de base quadrada: "cadeia
muito boa e bem acabada com casa de audiência e câmara
em cima, construída em pedra e barro, rebocada com cal
e coberta com telha", segundo relata o especialista, Paulo
Thedim Barreto.
Foi comum cadeia e câmara de vereadores funcionarem num
mesmo edifício, pois as câmaras exerciam também
funções judiciárias. Assim, no primeiro
pavimento reuniam-se os vereadores que eram também juízes;
a sala das sessões transformava-se em sala de audiências
no pavimento térreo e nos porões eram alojados
os presos.
Com a Proclamação da República, este tipo
de Câmara foi dissolvido, passando o governo do município,
a partir de 1890, a ser exercido por Conselhos de Intendência
Municipal nomeados pelos governadores.
Atualmente, estão preservadas pelas cidades do Brasil,
Casas de Câmara e Cadeia antigas e bem típicas.
Outras tantas já foram demolidas ou transformadas.
Em Florianópolis, a antiga Câmara e Cadeia da
Vila de Nossa Senhora do Desterro ainda guarda muitas das suas
características originais, embora, para o leigo, num
primeiro olhar, possa não parecer. Ela foi construída
pelo sargento-mor açoriano Tomás Francisco da
Costa, nascido na Ilha do Faial, sendo erguida entre os anos
de 1771 e 1780, com recursos oriundos do pagamento de impostos,
inclusive um imposto curioso chamado "subsídio
literário", que era cobrado sobre cada pipa de
cachaça produzida na região.
O prédio da Câmara Municipal de Florianópolis é de
grande valor histórico dentro do contexto político-social
da cidade, pois além de estar estritamente vinculado à vida
política de nossa Capital, é uma das mais importantes
edificações da arquitetura civil do século
XVIII.
Do ponto de vista arquitetônico, a sua planta apresenta
as mesmas características de outras antigas casas de
câmara e cadeia brasileiras, tendo a cadeia no térreo,
conforme determinava a tradição portuguesa, e,
no pavimento superior, funcionavam a Assembléia Legislativa
Provincial e o Paço da Câmara e do Senado. Além
do volume primitivo, ela guarda internamente as maioria das
paredes originais, embora não haja mais a escada primitiva,
nem as grades das celas, demais ferragens e a enxovia (cárcere
do porão) esteja lacrada. Também nada restou
do mobiliário original. Felizmente o pórtico
da fachada preserva a última cantaria de pedra e o salão
das sessões ainda é o mesmo espaço, no
segundo piso, voltado para o contexto da Praça XV de
Novembro. A decoração eclética, com platibanda
e cimalha ornamentada, arcos abatidos nas janelas de peitoril
em serralheria deu requinte à construção,
que perdeu o ar vetusto e sóbrio de casarão colonial,
do mesmo modo que a antiga Casa do Governo (Museu Histórico
Palácio Cruz e Sousa), no final do século XIX.
Assim o sobradão luso-brasileiro incorporou, em 1896,
a decoração eclética.
Na antiga Casa de Câmara e Cadeia funcionou a Cadeia
Pública, desativada com inauguração da
Penitenciária Estadual da Agronômica, em 1930.
A partir deste fato, os ocupantes da Câmara Municipal
passaram a expandir o seu espaço e a construir diversos
mezaninos entre os pisos originais do edifício, o que
resultou atualmente num verdadeiro labirinto no seu interior.
Com a mudança de sede da Câmara de Vereadores
em 2004, o edifício foi desocupado, ficando sem função,
sem manutenção e sem identidade definidas. Passou
a ser utilizado como sede ocasional de eventos públicos:
Casa do Papai Noel, do Coelhinho de Páscoa, sede da
Parada Gay, espaço para exposições sobre
o Carnaval e a Procissão do Senhor Jesus dos Passos
estão entre os eventos que, embora tenham grande mérito
como humanizadores da vida urbana, certamente estão
ocupando um local pouco apropriado. Nem se valoriza os acervos
e as expressões sócio-culturais destas datas
com o mérito de que são dignas, nem se salvaguarda
a integridade e a identidade do edifício, que é um
patrimônio sem par. Repito: não há outro
igual.
Lembremos aqui a palavra chave autenticidade, que surge no
preâmbulo na Carta de Veneza, ao abordar o dever que
representa para a humanidade a transmissão das suas
obras culturais às futuras gerações na
plenitude de seu caráter genuíno. Isto envolve
o respeito à história e à identidade do
edifício, nos seus aspectos físico e simbólico.
Em 1984 a Casa de Câmara e Cadeia foi reconhecida como
patrimônio histórico municipal, importância
histórica e arquitetônica confirmada, juntamente
com mais de duas centenas de edifício antigos da capital,
através do decreto lei 270/86. Em outro decreto municipal,
de nº. 521, no ano de 1989, este edifício foi classificado
como P1, que determina a salvaguarda da sua integridade interior
e exterior.
Mas, atualmente, parece que são poucas as pessoas para
quem chama a atenção a singularidade do edifício
que está situado à Praça XV de Novembro,
na esquina com a rua Tiradentes. Muitos já não
sabem o que é; outros apontam para “a casa rosa” ou “a
casa do Papai Noel”, sem saber que se trata da antiga
Casa de Câmara e Cadeia da Vila de Nossa Senhora do Desterro,
que pode ser considerada o prédio mais relevante para
a história da cidade de Florianópolis, depois
da Igreja Matriz! É um edifício único,
pois a Casa de Câmara e Cadeia, na falta do antigo Pelouro,
simboliza a autonomia administrativa do lugar, a sua condição
de município, conquistada em Desterro, desde 1726. Parafraseado
a Fundação Portuguesa Cultusintra: A antiga Casa
de Câmara e Cadeia é o ex libris da panóplia
arquitetônica da cidade de Florianópolis. (a marca
na armadura identifica o guerreiro, sua origem e seu papel
no contexto).
A importância deste monumento e a perda crescente da
sua identidade justificam divulgá-lo e defender a idéia
de que ele receba restauração cuidadosa e exemplar
- desde o projeto à execução - antecedida
por estudos históricos e analíticos de materiais
e técnicas empregados e que inclua prospecção
arqueológica, dentro da mais recente linha da arqueologia
arquitetônica. Só uma restauração
de excelência irá interromper o processo de deterioração
avançado e recuperar a legibilidade dos antigos ambientes
deste monumento e o aspecto de uma determinada época.
Mas além de ser uma intervenção de alto
rigor profissional, é importante sobretudo que se absorva
a idéia de planejar uma utilização tão
cuidadosa quanto o seu restauro, adaptada e compatível
com as características deste monumento localizado no
coração do Centro Histórico, instalando
ali o Museu da Cidade, um equipamento cultural diferente, arrojado,
atraente e compatível com as curiosidades contemporâneas,
um museu que utilize as mídias deste novo milênio
e que fale sobre a cidade de Florianópolis e sobre os
seus habitantes em todos os tempos, incluindo aqui as preocupações
com o futuro da cidade.
A antiga Câmara e Cadeia pode ser novamente uma casa
do povo e marco identificador da sua história e do seu
papel nesta história, revelando-se como testemunha,
palco, personagem e agente da cidade, desde os tempos mais
remotos, até a atualidade, para que todo o cidadão
possa conhecer a sua história e se reconhecer ali, refletindo
não só sobre o passado, mas sobre a trajetória
da sua cidade e o futuro que almeja para ela.
Podemos pensar no uso deste edifício como um museu.
Os equipamentos culturais, como os museus, são marcos
que identificam as cidades. E quando são instalados
em edifícios históricos tão emblemáticos
como este, eles incorporam um valor adicional.
Em Florianópolis temos poucos museus, alguns muito especiais,
como o Cruz e Sousa e o Victor Meirelles. Nestes dois casos
os temas dos museus estão diretamente ligados à identidade
dos edifícios – e isto é bom. O museu Victor
Meirelles, por exemplo, está instalado na casa onde
nasceu o pintor. O Museu Histórico de Santa Catarina
- Palácio Cruz e Sousa enfatiza a história política
de Santa Catarina, na museografia de cinco salas do segundo
pavimento, sem descuidar de ser hoje um pólo de atividades
culturais que tratam da música, do teatro, da fotografia
e da artes plásticas, usando salas do piso térreo
e os jardins.
A antiga Câmara e Cadeia pode tornar-se um museu inovador,
pois hoje a museologia e a museografia abrem muitas opções
para museus não convencionais. Estão aí as
técnicas que conquistam o público na Pinacoteca
de São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa,
na Casa de Cultura de Paraty, na antiga Casa de Câmara
e Cadeia de Porto Seguro, por exemplo. Nenhum destes locais
explora o objeto antigo em si. Alguns destes museus estão
instalados em prédios históricos preservados,
restaurados, onde foram instalados museus virtuais, centros
de memória com hipermídias e espaços interativos. É este
tipo de equipamento que a Casa de Câmara e Cadeia da
antiga Desterro merece.
E, para tornar ainda mais legítima esta reaproximação
do cidadão da casa do povo, será muito bom se
os projetos de restauro e de instalação do equipamento
cultural que se vier a propor para a antiga Câmara e
Cadeia sejam, os dois, objetos de concursos públicos,
amplamente divulgados.
Parafraseando o colega português Eduardo Geada: é preciso
planificar o futuro do passado; não se recupera o patrimônio
só porque pertence ao passado, mas porque é necessário
criar condições para que continue sendo útil
no presente.
Assim, seja um arquiteto, um urbanista, engenheiro ou geógrafo;
seja um professor, um cientista, um filósofo, um erudito
ou um indivíduo com menos formação intelectual – não
importa – todos são sensíveis às
boas intervenções na arquitetura e merecem usufruir
dela, sobretudo na arquitetura de valor histórico, pelos
significados que ela encerra. E a todas as pessoas é possível
fazer pensar, refletir, sonhar e imaginar o que foi Florianópolis
no passado e o que se quer projetar para este lugar, no futuro.
Todos somos visionários, autores e personagens da mesma
história que herdamos e legamos e, portanto, somos responsáveis
por ela e pelas marcas impressas na paisagem.
Arquiteta
Eliane Veiga
Professora da Unisul e técnica pesquisadora
da Casa da Memória - Florianópolis
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