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É
batata ! Toda vez que, numa conversa qualquer,
o assunto "comportamento no mercado" vem
à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações
de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos com
Médicos, Dentistas e Advogados.
Quando me perguntam
o que eu acho disso (dessa comparação de
profissionais tão diferentes) respondo sempre
a mesma coisa: acho que essa comparação
é JUSTÍSSIMA.
Se eu, engenheiro,
por qualquer motivo, tiver de ser comparado
com outros profissionais, acho muito justo
que seja com médicos, com dentistas ou com
advogados.
Afinal temos muito
mais coisas em comum do que diferenças.
Somos todos prestadores de serviços. Nosso
produto (nosso serviço) é altamente especializado
e todas essas atividades demandam profissionais
com capacidade intelectual superior. Não
se chega a ser médico, advogado, dentista,
agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas
por ter um belo par de olhos, uma voz doce
ou algum dinheiro no banco...
O exercício das
profissões e o comportamento empresarial
de cada grupo, no entanto, é o que têm construído
enormes diferenças operacionais, comportamentais
e, conseqüentemente, patrimoniais, entre
engenheiros, médicos, arquitetos, dentistas,
advogados e agrônomos.
Mas isso não elimina
as semelhanças imensas que sempre tiveram
e que ainda têm.
Neste texto concentramos
nossas reflexões sobre a formação dos profissionais
de engenharia. No entanto, nossa experiência
e a convivência com milhares de arquitetos
e agrônomos dos mais distantes lugares do
Brasil nos permitem acreditar que os conceitos
podem se estender sem problemas também para
esses profissionais.
Voltemos no tempo.
Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que
hoje é um engenheiro) tinha seus quinze,
dezesseis anos, um ou dois anos antes do
vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito
provavelmente, um dos melhores alunos da
sua sala (talvez da escola). É um expoente
estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado
pelos professores, respeitado pelos pais,
de quem é motivo de muito orgulho, valorizado
pelos parentes, pelos vizinhos, admirado
pelas garotas (ou garotos).
Comparemos nosso
amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis
anos que virá a ser médico, dentista ou
advogado. Veremos quase nenhuma diferença.
É isso mesmo. Na
origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil,
a mesma história, o mesmo rendimento. Todos
são brilhantes e bem sucedidos.
Vem o vestibular.
Ingressa, cada qual na faculdade que escolheu...
E é aí que as diferenças começam a aparecer.
Os estudantes de
medicina e de odontologia são enquadrados
em um ambiente novo, com pessoas que se
vestem de uma maneira diferente, se comportam
de uma maneira diferente e que estabelecem
uma identidade visual (e, por decorrência,
uma identidade psicológica) com a atividade
profissional que irão exercer alguns anos
depois.
Os estudantes de
direito, já nos primeiros meses de escola
convivem com professores que vêm para as
aulas de terno, gravata, sapato social,
barba feita ou bem cuidada.
E o mais interessante:
aqueles senhores e senhoras respeitáveis,
bem vestidos e de fina educação (os professores),
tratam os seus alunos por "senhor" ou "senhora",
com toda a fineza e educação que a prática
profissional recomenda. E estimulam seus
alunos a acreditar e se convencerem de que
são superiores. Que estão se preparando
para "falar com o Estado" (privilégio que
não é concedido a nenhum outro profissional...).
Enfim, aprendem que precisam respeitar os
outros, mas aprendem, antes de tudo, que
precisam exigir respeito para si.
Nos últimos anos
de faculdade, estudantes de odontologia
e medicina já se vestem como se médicos
ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas
e atuam como profissionais na área da saúde.
Assumem, enfim, um ou dois anos antes de
terminada a faculdade, todo um comportamento
típico de médico. De dentista. Os estudantes
de Direito, por sua vez, a partir da Segunda
metade do curso, já se vestem como advogados
(roupa social, sapato, eventualmente gravata
e um terno ou blazer...). Mantém com os
seus professores e com os seus colegas um
comportamento e um vocabulário apropriado
para as lides jurídicas. E, o mais importante:
são tratados, pelos seus professores, como
Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório
até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja
preparado para a prova final, na sexta-feira.).
Apesar de ainda não terem concluído o curso.
Os estudantes de
engenharia, ao contrário, desde o início
do curso, a única diferença que eles conseguem
perceber na faculdade, em relação ao ensino
médio é o grau de dificuldade (que simplesmente
quintuplica!) Não existe nenhum estímulo
a um comportamento novo, nenhuma referência,
um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma
motivação para um desenvolvimento psicológico
alternativo. Nenhum elemento que interfira
na formação do profissional do ponto de
vista da sua imagem física composta de aspectos
visuais e comportamentais. A vida social,
no ambiente da faculdade, é muito restrita,
quando não inexistente.
Além do mais, a
faculdade entra na vida desses jovens como
um elemento de ruptura. Os alunos são colocados
em uma condição a que eles não estavam acostumados.
Estavam acostumados a tirar notas máximas
com a maior facilidade e, de repente, passam
a sofrer e ter grandes dificuldades para
obter notas mínimas ou médias. Deixam de
ser respeitados pelos seus professores que
se tornam distantes e autoritários e perdem
a admiração dos colegas que estão todos
desesperados tentando se salvar de uma coisa
que ainda não estão entendendo direito.
Não que as faculdades
de medicina, direito ou odontologia sejam
fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm
compensações psicológicas que os estudantes
de engenharia não têm. Essas faculdades,
por diversos mecanismos, inexistentes nas
escolas de engenharia, dão continuidade
ao amadurecimento psicológico e social do
futuro profissional. E, com isto, mantêm
em alta a motivação e auto-estima dos seus
estudantes.
Na engenharia não
existe nenhum processo de acompanhamento
psicológico para aquele estudante desesperado
que teve a sua carreira de sucesso estudantil
subitamente interrompida (mesmo os alunos
que continuam conquistando notas altas,
acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas,
do respeito dos professores e da admiração
coletiva). E não existe ninguém para explicar
o que está acontecendo. Ninguém para dizer
a este estudante que ele não é tão inepto
ou incapaz como, algumas vezes os professores
parecem querer provar.
É quase geral,
por parte dos professores, nas escolas de
engenharia, o exercício gratuito de poder
e o terrorismo psicológico.
E o aluno, que
entrou na faculdade no auge positivo da
auto-estima, vai recebendo, ao longo de
cinco anos, das mais variadas formas, uma
única mensagem: "Você não é tão bom quanto
você pensava que fosse !". Ao contrário
dos estudantes de direito, medicina ou odontologia,
que têm como professores, profissionais
que atuam no dia-a-dia de suas atividades,
os estudantes de engenharia passam cinco
anos submetidos aos rigores (e, em alguns
casos, caprichos) de engenheiros que não
atuam, profissionalmente, como engenheiros
e sim como professores, e que, portanto,
não têm a vivência da atividade profissional
e não têm a ciência ou a consciência das
relações comerciais que vão definir o sucesso
ou o fracasso dos profissionais que eles
estão formando.
Como resultado
disso, ao final de cinco anos, o estudante
de engenharia se transforma em um engenheiro.
E este engenheiro é completamente desprovido
de auto-estima, de respeito próprio, de
prazer profissional ou de consciência de
mercado. Na metade do último semestre da
faculdade, dois meses antes de receber o
diploma e ser entregue aos leões do mercado,
o estudante de engenharia ainda é tratado
como mero es-tu-dan-te.
Em momento algum,
durante a faculdade, o estudante de engenharia
é tratado como engenheiro, em momento algum,
durante esses cinco anos, a escola propicia
a percepção da mudança de condição de estudante
para a condição de profissional.
Estudantes de direito,
medicina e odontologia, ao contrário, muito
antes do fim da faculdade já têm uma noção
razoavelmente clara das dificuldades do
exercício profissional que eles irão enfrentar.
Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos
de defesa e saem da faculdade com maior
grau de segurança. Entram no mercado profissional
de cabeça erguida, com uma consciência de
valor. E com todo o processo de construção
da imagem profissional em andamento.
Estudantes de engenharia
não são estimulados a se vestir bem, nem
a ter preocupações com técnicas de comunicação
ou relacionamento social ou de exercício
intelectual não linear. Com isso acabam
não desenvolvendo habilidades gerenciais
ou de relacionamento com o mercado.
Esta é uma das
razões pelas quais as organizações de engenharia
são quase sempre extremamente burocráticas
e conservadoras.
Os engenheiros,
via de regra, só vão perceber os resultados
da negligência com a imagem física e o comportamento
no mercado, depois de já terem acumulado
algumas perdas desnecessárias (algumas das
quais, infelizmente, irreversíveis).
E qual é a utilidade
desse discurso? Qual a importância de se
colocar este tema no papel? Porque tornar
pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá
alguns segmentos?
Ninguém é ingênuo
a ponto de acreditar que a simples leitura
deste ensaio leve um diretor de escola de
engenharia, um professor, um estudante ou
um profissional de engenharia a alterar
o seu comportamento.
O que se espera
é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado,
tenham um momento de reflexão. E que a esse
momento de reflexão se siga uma atitude.
E que essa atitude tenha como objetivo dar
um futuro melhor para a engenharia no Brasil.
A engenharia depende
dos engenheiros. E os engenheiros começam
a ser formados aos quinze ou dezesseis anos,
ainda no ensino médio.
Eu ainda acho,
como sempre achei, que o conhecimento científico
que é transmitido aos estudantes durante
a faculdade de engenharia é fundamental.
E que o valor da engenharia está sustentado
na capacidade intelectual e técnica dos
seus profissionais.
No entanto, vejo
como importantíssima uma nova visão, nesse
processo de formação do engenheiro, que
leve em consideração todo o relacionamento
social dos estudantes entre si e com os
seus professores. É importante que, aos
estudantes, seja transmitida uma visão mais
clara das relações comerciais que eles enfrentarão
na vida profissional, seja na condição de
profissionais autônomos, empresários ou
empregados em alguma empresa.
Em qualquer um
desses casos as relações sociais são elementos
definitivos para o sucesso. É um "detalhe"
que faz toda a diferença.
Na Escola de Engenharia
o engenheiro precisa ser "construído" para
ser um vencedor. Precisa ser estimulado
a acreditar no seu potencial. Confiar na
sua inteligência. E, acima de tudo, precisa
aprender a importância de manter a cabeça
erguida.
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